quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

RESENHA CRÍTICA

Modelo de resenha crítica. A obra resenhada é CULTURA BRASILEIRA E IDENTIDADE NACIONAL.


RESENHA CRÍTICA

ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

1 CREDENCIAIS DO AUTOR
            Nasceu em Ribeirão Preto (SP) em 1947. Estudou na Escola Politécnica (USP) entre 1966 e 1969. Formou-se em Sociologia e Antropologia pela Universidade de Paris VIII e doutorou-se em Sociologia e Antropologia pela École des Hautes Études em Sciences Sociales.
            Foi professor da Universidade de Louvain (1974-1975), da UFMG (1977-1984) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-SP (1985-1988). Foi pesquisador do Latin American Institute da universidade de Columbia e do Kellog Institute da Universidade de Notre Dame, além de professor visitante da Escuela de Antropologia, no México.
            Publicou vários artigos sobre religiosidade popular, cultura brasileira e cultura popular em diferentes revistas, entre elas: Religião e Sociedade, Cadernos de Opinião, Cadernos de CERU, Archives dês Sciences Sociales de Religions e Diogénes. É autor dos livros A Consciência Fragmentada (Paz e Terra), Pierre Bourdieu (Ática), Telenovela: História e Produção (Brasiliense), em coautoria com José Mário Ortiz e Silva S. Borelli, A Morte Branca do Feiticeiro Negro (Brasiliense) e A Moderna Tradição Brasileira (Brasiliense).

2 RESUMO DA OBRA
Na introdução o autor fala que o tema da cultura brasileira e da identidade nacional é um antigo debate que se trava no Brasil. No entanto, este debate permanece atual até hoje, constituindo uma espécie de subsolo estrutural que alimenta toda a discussão em torno do que é o nacional.
No primeiro capítulo o Ortiz terce algumas reflexões em torno da relação entre questão racial e identidade brasileira. Ele toma como objeto de estudo alguns autores, como Sílvio Romero, Nina Rodrigues e Euclides da Cunha. Para ele o dilema dos intelectuais desta época é compreender a defasagem entre teoria e realidade, o que se consubstancia na construção de uma identidade nacional. Sendo que este pensamento brasileiro da época encontra tais argumentos em duas noções particulares: o meio e a raça.
            Na realidade, meio e raça se constituíram em categorias do conhecimento que definiam o quadro interpretativo da realidade brasileira. Para ele ser brasileiro significa viver em um país geograficamente diferente da Europa, povoado por uma raça distinta da europeia. Meio e raça traduzem, portanto, dois elementos imprescindíveis para a construção de uma identidade brasileira: o nacional e o popular.
            A problemática da mestiçagem é na realidade retomar a metáfora do cadinho, isto é, do Brasil enquanto espaço da miscigenação. Neste momento torna-se corrente a afirmação de que o Brasil se constituiu através da fusão de três raças fundamentais: o branco, o negro e o índio. O quadro de interpretação social atribuída, porém à raça branca uma posição de superioridade na construção da civilização brasileira. Associa-se, dessa forma, a questão racional ao quadro mais abrangente do progresso da humanidade. Dentro desta perspectiva, o negro e o índio se apresentam como entraves ao processo civilizatório.
            Uma primeira conclusão se impõe. No momento em que as teorias raciológicas entram em declínio na Europa, elas se apresentam como hegemônicas no Brasil. A virada do século é ainda um momento de indecisão, o que faz com que os intelectuais das classes dominantes reproduzam, em níveis diferenciados, uma exigência histórica que transparece claramente no interior do discurso ideológico elaborado.
            Além disso, no segundo capítulo o autor vai fazer referência a Florestan Fernandes, ao tratar da questão racial no Brasil, este afirmava que o brasileiro tem o preconceito de não ter preconceito. Ele vai dizer que os primeiros estudos sobre o negro somente se iniciarão com Nina Rodrigues, já na última década do século, mas sob a inspiração das teorias raciológicas. Neste capítulo o autor vai usar uma perspectiva diferente sendo esta a corrente de pensamento de Gilberto Freyre.
            O mito da mestiçagem é ambíguo porque existem dificuldades concretas que impedem sua plena realização. A sociedade brasileira passa por um período de transição, o que significa que as teorias raciológicas, quando aplicadas ao Brasil, permitem aos intelectuais interpretar a realidade, mas não modificá-la.
            Já no terceiro capítulo Ortiz vai continuar sua análise a partir da corrente de pensamento dos intelectuais de ISEB. Estes ao construírem uma teoria do Brasil, retomam a temática da cultura brasileira, mas vão imprimir novos rumos à discussão. Os isebianos analisam a questão cultural dentro de um quadro filosófico e sociológico, dizendo que a cultura significa as objetivações do espírito humano. Apesar de ter forte influência na cultura popular o ISEB se insinua em duas áreas que são palco permanente de debate sobre a cultura brasileira: o teatro e o cinema.
            Outro ponto que é abordado pelo ISEB e por Fanon são os conceitos de alienação de situação colonial dentro de uma perspectiva política que aponta para a superação da dominação colonialista. Além disso, o conceito de nacional será inflexionado em direções diferentes. Para Fanon a nação não é somente uma realidade sociológica, o Estado argelino, mas sobretudo uma utopia. Já os intelectuais do ISEB falam a partir de outra realidade política. A nação brasileira não é algo que se encontra situado no futuro, pelo contrário, a existência de uma sociedade civil atesta que ela é uma realidade presente mas que não se encontra ainda plenamente desenvolvida. Não há utopia, a realização do Ser nacional era para eles uma questão de tempo, cabia à burguesia progressista comandar esse processo.
            O quarto capítulo será usado pelo autor para abordar um aspecto particular do debate sobre a cultura brasileira, ou seja, a temática da cultura popular e para isso usará a ação do Centro Popular de Cultura, que funcionou durante esse período junto à sede da União Nacional dos Estudantes, na Guanabara. Além disso, afirma que apesar de algumas considerações contrárias, a concepção conservadora da cultura popular dominou grande parte da literatura folclórica brasileira; ela será, entretanto fundamentalmente questionada com a emergência dos Centros Populares de Cultura. De forma mais sucinta, Ferreira Gullar compreende a “cultura popular” como a “tomada de consciência da realidade brasileira”.
            Para o CPC, a análise da realidade social se articula fundamentalmente através da categoria da alienação; este conceito se encontra disseminado ao longo dos estudantes da UNE, e no livro de Ferreira Gullar, mas foi particularmente desenvolvido em sua aplicação à “cultura popular” por Carlos Estevam.
            Um importante aspecto da ideologia é a questão do nacionalismo; trata-se evidentemente de uma problemática que domina a época na qual se desenvolvem as atividades dos centros de cultura popular. O autor entende que o nacionalismo das novas produções brasileiras, das manifestações folclóricas, do turismo é neste sentido puramente simbólico, mas ele recupera uma identidade nacional que se encontra harmoniosamente fixada no nível do imaginário.
            No quinto capítulo Renato Ortiz vai trabalhar as relações entre o Estado autoritário e a cultura, afirmando ele que estas relações são antigas no Brasil. Ele vai dizer que o crescimento da classe média, a concentração da população em grandes centros urbanos vão permitir ainda a criação de um espaço cultural onde os bens simbólicos passam a ser consumidos por um público cada vez maior. A pesar disso, ele fala que a distribuição e a criação dos produtos culturais reproduz as contradições do próprio modelo capitalista brasileiro, que acentua a diferença entre as regiões e reforça a divisão de trabalho entre cidade e campo.       
            Ainda nesse aspecto ele fala que o movimento cultural pós-64 se caracteriza por dois momentos que não são na verdade contraditórios; por um lado ele é um período da história onde mais são produzidos e difundidos os bens culturais, por outro ele se define por uma repressão ideológica e política intensa. Além disso, ele vai falar que o processo de hegemonização, que teria necessariamente de ser analisado sob o ângulo daqueles que recebem os bens culturais, se concentra nos centros urbanos. Não obstante, ele parece se delinear como uma orientação futura do desenvolvimento do capitalismo brasileiro, daí a importância em analisar as linhas e tendências de sua evolução.
            No último capítulo o autor vai finalizar com um paralelo entre Estado, cultura popular e identidade nacional. Logo no inicio ele vai dizer que a relação entre a temática do popular e do nacional é uma constante na história da cultura brasileira, a ponto de um autor como Nelson Werneck Sodré afirmar que só nacional o que é popular. Ainda afirma que em diferentes épocas, e sob diferentes aspectos, a problemática da cultura popular se vincula à da identidade nacional.
            Ortiz ainda vai dizer que identidade nacional e cultura popular se associam ainda aos movimentos políticos e intelectuais nos anos 50 e 60 e que se propõem redefinir a problemática brasileira em termos de oposição ao colonialismo. Com isso ele afirma que a luta contra o colonialismo é simultaneamente nacional e popular.
            Ao continuar a discussão ele vai dizer que a cultura popular é heterogênea, as diferentes manifestações folclóricas – reisados, congadas, folias de reais – não partilham um mesmo traço em comum, tampouco se inserem o interior de um sistema único. A cultura popular é plural, e seria talvez mais adequado falarmos em culturas populares.
Ainda nesse contexto o autor vai falar que a memória coletiva é da ordem da vivência, a memória nacional se refere a uma história que transcende os sujeitos e não se concretiza imediatamente no seu cotidiano. Além disso, a memória coletiva se aproxima do mito, e se manifesta portanto ritualmente. Já a memória nacional é da ordem da ideologia, ela é o produto de uma história social, não da ritualização da tradição. Contudo a memória nacional necessita de mediadores que são os intelectuais, pois são eles que descolam as manifestações culturais de sua esfera particular e as articulam a uma totalidade que as transcende.
Concluindo o capítulo Ortiz vai falar sobre os movimentos populares onde ele vai dizer que estes não coincidem com as expressões populares. Na realidade eles agem como filtro, privilegiando alguns aspectos da cultura mas esquecendo outros.

3 CONCLUSÕES  DO AUTOR
Renato Ortiz não evidencia uma síntese da sua obra, estando sempre concluindo seu pensamento. Sendo assim, neste livro “Cultura Brasileira e Identidade Nacional”, não se encontra explícita uma conclusão da mesma.
Todas as concepções evidenciadas mostram claramente, que a identidade nacional esta profundamente ligada a uma reinterpretação do popular pelos grupos sociais e pela própria construção do Estado brasileiro. Além disso, mostra que a não existe apenas uma identidade autêntica, mas uma pluralidade de identidades, construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos.

4 CRÍTICA DA RESENHISTA
Embora tenha um estilo repetitivo na apresentação de suas ideias e possua um estilo próprio de expor seu pensamento acerca do tema, na obra o autor fornece subsídios à pesquisa científica, à medida que trata o problema em questão embasado nos principais atores e protagonistas do processo de construção da cultura e identidade brasileira, sempre tratando o assunto de forma realista.
Porém, isto não interfere na compreensão da ideia central da obra resenhada, em virtude de estar relacionada ao cotidiano e à prática de todos os autores citados.
É um livro que contribui para o processo de aprendizagem de vários acadêmicos dos cursos na área das ciências humanas, pois a obra de Renato Ortiz ajuda a melhor compreender a cultura e a identidade do país.

5 INDICAÇÃO DA RESENHISTA
            Por ser uma obra que envolve os pensamentos de diversos autores de grande prestigio no Brasil, esta obra se destina a todos quantos queiram aprofundar-se na temática da cultura brasileira e identidade nacional.
            Destina-se principalmente, a professores e acadêmicos do curso de história, se estendendo para todos os cursos na área de humanas, em especial.


Ana Kercy Farias de Oliveira. Aluna do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Piauí.

Nenhum comentário:

Postar um comentário